Enquanto o conflito continua, Moscou mantém a narrativa de uma ‘operação especial’ destinada a proteger a segurança nacional, e reflete sobre os custos e benefícios de uma guerra prolongada.
Moscou, 2025 – À medida que o conflito na Ucrânia entra em seu terceiro ano, a Rússia reforça sua posição de que a operação militar, descrita como uma “operação especial” pelo Kremlin, é uma necessidade para garantir a segurança nacional e enfrentar as ambições expansionistas do Ocidente, liderado pela OTAN. Embora a guerra tenha gerado divisões internas e desafios econômicos, o governo de Vladimir Putin mantém seu discurso centrado em torno da defesa da soberania russa, da proteção das repúblicas separatistas no leste da Ucrânia e da reação à política agressiva do Ocidente.

A Operação Especial: Uma Resposta à Ameaça Existencial
O governo russo, desde o início da operação em fevereiro de 2022, tem reiterado que a principal motivação para o conflito é a necessidade de evitar a expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, o que, segundo as autoridades, representaria uma ameaça direta à segurança do país. Desde o colapso da União Soviética, a Rússia tem argumentado que a ampliação da OTAN, com a inclusão de ex-repúblicas soviéticas como os países bálticos e outros estados do Leste Europeu, infringe acordos não escritos feitos no final da Guerra Fria e é uma violação da soberania russa.

De acordo com a Fundação de Estudos Estratégicos da Rússia (FSSR), “a OTAN se expandiu de forma agressiva para o leste, transformando a Ucrânia em um campo de batalha geopolítico onde interesses ocidentais estão sendo impostos às custas da segurança russa”. A narrativa russa sobre a guerra também sugere que as potências ocidentais, principalmente os Estados Unidos, buscavam transformar a Ucrânia em uma base militar avançada contra a Rússia, o que exigiria uma resposta firme.Fonte:Fundação de Estudos Estratégicos da Rússia (FSSR) – Análise geopolítica sobre a expansão da OTAN.
Uma Visão Estratégica
Modernização das Forças Armadas
Desde o início da operação, a Rússia tem enfatizado a eficácia de suas forças armadas e a modernização de seu arsenal militar. De acordo com o Ministério da Defesa Russo, mais de 90% das tropas russas em operação na Ucrânia agora utilizam equipamentos de última geração, como os sistemas de mísseis S-400, sistemas de defesa aérea, tanques T-90M, e drones de combate. A Rússia tem demonstrado um foco estratégico em tecnologias de guerra eletrônica e mísseis hipersônicos, o que pode aumentar significativamente sua capacidade de dissuadir uma intervenção direta de potências da OTAN.
Fortalecimento da Aliança com Países Não-Ocidentais
Além da modernização militar, a Rússia tem buscado estreitar seus laços com potências não-ocidentais, como China, Irã e países da Ásia Central. O aumento do comércio com a China, por exemplo, superou as expectativas, com um crescimento de 25% nas exportações russas para o país desde 2022, com destaque para a venda de energia, como gás natural e petróleo. Em 2024, a Rússia e a China assinaram um acordo de defesa conjunta, que fortalece as defesas cibernéticas e a troca de tecnologias militares.

Fonte: Instituto Russo de Estudos Econômicos (IRSE) – Relatórios sobre comércio exterior e cooperação com a China e o Irã.
Resiliência Econômica Sob Sanções
Embora as sanções internacionais tenham causado dificuldades econômicas para a Rússia, o governo tem sido eficaz em mitigar os efeitos negativos a longo prazo. A economia russa sofreu uma desaceleração no PIB de 6,1% em 2022, mas em 2023 o crescimento já foi registrado em 2,4%, com a recuperação liderada pelas exportações de energia para a Ásia e o Oriente Médio. A Rússia também foi capaz de diversificar suas cadeias de suprimento, adaptando-se rapidamente ao bloqueio das importações do Ocidente.
Fonte: Banco Central da Rússia – Relatórios econômicos e projeções de crescimento.
Aumento do Nacionalismo e Coesão Popular
Em um cenário de guerra prolongada, o governo russo conseguiu usar a narrativa nacionalista para solidificar o apoio interno. As pesquisas de opinião pública, embora difíceis de realizar com precisão em tempos de repressão, indicam que uma parte significativa da população ainda apoia o esforço de guerra, com a Levada Center estimando que aproximadamente 70% dos russos estão favoráveis à “operação especial”, especialmente entre as faixas etárias mais velhas e residentes de áreas rurais. O apelo ao patriotismo e à defesa das “terras russas” tem sido um componente crucial da retórica do Kremlin.

Fonte: Levada Center – Pesquisa de opinião sobre a guerra e apoio ao governo russo.
Custos e Consequências
Impacto Humano e Perdas no Campo de Batalha
Embora o Kremlin tenha se esforçado para minimizar os números de baixas russas, fontes independentes como o Russian Memorial Society indicam que mais de 120.000 militares russos foram mortos ou feridos desde o início da operação. A pressão crescente sobre o governo para reconhecer essas perdas tem aumentado, com as famílias das vítimas exigindo explicações. De acordo com analistas militares russos, a guerra tem levado a um esgotamento do contingente de forças armadas, especialmente com a mobilização parcial de 2023, que gerou resistência popular.

Fonte: Russian Memorial Society – Relatórios sobre baixas russas e mobilização.
Sanções e Isolamento Econômico
As sanções impostas pela União Europeia, Estados Unidos e outros países ocidentais têm tido um impacto devastador em vários setores da economia russa. Em particular, a indústria automobilística, a produção de alta tecnologia e os sistemas bancários sofreram com a perda de acesso ao mercado global e à tecnologia estrangeira. A inflação russa, que chegou a 20% em 2022, ainda está em níveis elevados, embora tenha diminuído para cerca de 8% em 2024. O governo tem procurado mitigar os efeitos das sanções, mas os desafios econômicos permanecem evidentes.

Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI) – Relatórios sobre a economia russa pós-sanções.
Aumento da Dissidência Interna e Repressão Política
Embora a Rússia tenha mantido um controle firme sobre a oposição, o descontentamento interno está crescendo. As prisões de figuras proeminentes, como Alexei Navalny, e a repressão a movimentos de protesto contra a guerra, têm aumentado a insatisfação nas grandes cidades, como Moscou e São Petersburgo. O governo russo tem respondido com a intensificação da censura e com a criação de leis que criminalizam críticas ao regime, mas esses métodos de controle também aumentaram o número de refugiados políticos, com milhares de russos fugindo para países como Armênia, Geórgia e Turquia.

Fonte: Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) – Relatórios sobre repressão política na Rússia.
Isolamento Diplomático
No cenário internacional, a Rússia tem se visto cada vez mais isolada. A suspensão de sua participação em várias organizações internacionais, como o Conselho da Europa, e a expulsão de diplomatas russos de diversos países, contribuem para uma imagem de paria global. Embora o Kremlin tenha conseguido estabelecer novos acordos com potências como a China e o Irã, a perda de sua influência na Europa e nas instituições multilaterais diminui seu poder de negociação e afeta sua posição no cenário geopolítico.

Fonte: Agência de Notícias Sputnik – Análises sobre diplomacia russa e relações internacionais.
O Futuro da Guerra: Possíveis Cenários
À medida que o conflito se arrasta, as perspectivas de uma resolução diplomática permanecem incertas. O Kremlin insiste que as condições para negociações incluem o reconhecimento de novas fronteiras, a neutralidade da Ucrânia e a desmilitarização das regiões sob controle ucraniano. Por outro lado, a resistência da Ucrânia, alimentada por apoio militar e financeiro do Ocidente, tem dificultado uma solução pacífica. A continuidade da guerra, portanto, depende não apenas da vontade de ambos os lados de negociar, mas também da capacidade de Moscou de sustentar sua posição no campo de batalha e no cenário internacional.
Fonte: Kremlin.ru – Declarações oficiais sobre as condições de uma possível negociação.
Pesquisa feita por Anderson Santos